ARTIGO – Competição

Publicado Coluna Bem Viver do Jornal Estado de Minas

“Antônio Roberto, sou executivo de uma grande empresa e vivo sempre estressado. Estou cansado de tanta competição na sociedade. Como resolver esse impasse? Francisco de Belo Horizonte.”


A base estrutural da nossa sociedade é a competição. Nossos sistemas econômicos, sociais e empresariais se fundamentam em uma luta em que há os que vencem e os que perdem.

A competição em si não é má. É apenas um processo de relacionamento. A forma como competimos é que nos desgasta emocionalmente.

Poderíamos dizer que há uma competição saudável e uma competição doentia. A competição sadia se caracteriza por alguns aspectos. O primeiro deles é a clareza. É o jogo aberto. Todos conhecem as regras. A competição se torna quase uma consulta à realidade para se saber quem é o mais forte, mais habilidoso, etc. Não se trata de derrotar alguém, de destruir a outra pessoa. Trata-se de testar as qualidades, objeto da disputa. Há um grande prazer nesse tipo de competição. Daí o fascínio das pessoas pelas competições esportivas, nos concursos de beleza, nos jogos olímpicos, etc. Ela se torna uma brincadeira. Talvez, por isso, a máxima: O importante não é vencer, é competir. Lembro-me aqui de uma cena comovente em uma das olimpíadas, em que uma atleta, em último lugar, com um enorme atraso de tempo, sendo vista mundialmente pela televisão, cansada, extenuada, quase desfalecendo, mas sozinha na pista, lutando para completar a prova.

Era o exemplo típico de alguém que sabe competir. Dessa forma, a competição é apenas uma face da medalha. A outra é a cooperação. A cooperação e a competição se completam. Uma não existe sem a outra. Um time tem que ter uma altíssima dose de cooperação interna para competir com o outro time. O competidor sadio, por outro lado, sabe ganhar e sabe perder. É sempre bem visto o candidato derrotado que cumprimenta o oponente vencedor. É o reconhecimento da realidade. Tenha essa realidade o nome de vontade popular, da marcação do cronômetro, ou da decisão dos juízes.

Caro leitor, o que nos desgasta na competição, do ponto de vista emocional, é não saber perder. É como se nosso valor como pessoa desaparecesse ao perdermos o vestibular, um cargo profissional, ou o jogo de futebol.

Na competição doentia, o compromisso com o êxito, com o sucesso, com o primeiro lugar se torna quase uma obsessão. Quer-se ganhar a qualquer custo. Bulam-se as regras, e o objetivo é destruir o adversário. Saímos da ludicidade competitiva e entramos no jogo sujo. Atrás desse tipo de competição predominam alguns sentimentos negativos: ansiedade, inveja, vingança e ódio. A competição deixa de ser, por outro lado, pontual, esporádica e se torna um jeito de ser.

Internalizamos a disputa de tal forma que competimos o tempo todo, em todos os lugares e com todas as pessoas. Seria essa competição que nos leva a sair em disparada em direção ao avião que espera na pista os passageiros, atropelando todas as outras pessoas mesmo já tendo nosso lugar previamente marcado?

Querer sempre ter razão, diminuir sistematicamente os outros, criticar constantemente, falar mal das pessoas, recusar-se a participar de um grupo, explorar os demais, não contribui no trabalho coletivo, são sintomas do estado crônico de competição. Tornou-se celebre a lei de Gerson: “levar vantagem em tudo”

Há duas posturas fundamentais: o estado de luta e o estado de dança. A competição é um estado de luta. O relaxamento é um estado de dança.

Cronificar o estado de luta cria tensões, insegurança e hostilidade. Nas relações amorosas, no casamento, na família, na amizade não há lugar para competição e sim para o amor. Infelizmente essas relações são marcadas pelo confronto e pelo “perde-ganha”. As leis competitivas que regem a sociedade não servem para os relacionamentos de amor.

A competição destrutiva é, por isso mesmo, autodevoradora. Ela nos leva a uma figura triste, mas cada vez mais comum: os fracassados dentro do sucesso. Ganharam, mas são infelizes.

“De que vale ganhar todo o universo, se perdemos nossa alma?”

Antônio Roberto

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Um comentário para “ARTIGO – Competição”

  1. paloma disse:

    gosto de suas falas , ouço degustando tao somente para absorver e ver se consigo me fazer melhor a cada dia , e acho que estou no caminho pois consigo lhe ser grata, e quero ter o prazer de ve lo pessoalmente , estou num setor de trabalho onde tento praticar tudo que ja ententi nesta sua jornada linda e tao necessaria. meu nome e cleusani.

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