Publicado Coluna Bem Viver do Jornal Estado de Minas
“Antônio Roberto, eu me relacionei com um homem e, há 1 ano, estamos “ficando”. Quando ele me procura é sempre para ir ao motel. Eu insisto com ele para o nosso relacionamento ficar mais sério e ele diz que é melhor ficar como está. Eu acabo concordando, pois me apaixonei, mas não é isso que desejo. Por outro lado ele não quer que eu saia com amigos, nem pegue carona e nem tenha relação sexual com outra pessoa a não ser ele. Gostaria de entender por que ele age assim, sendo que não temos nada sério. Obrigada. Janilda de Belo Horizonte.”
São inúmeros os tipos de relacionamento que podemos ter e cada um deles tem características próprias e conseqüências próprias. Existem o relacionamento religioso com Deus, com os pais, com os filhos, com os amigos, com colegas de trabalho, etc.
No campo amoroso, vocês escolheram o “ficar” que se caracteriza apenas pela satisfação sexual imediata, sem nenhum comprometimento. Quando você pede a ele um relacionamento mais sério, ou seja, um relacionamento socialmente aceito e com perspectiva de futuro, você procura ir além do prazer sexual e quer outros prazeres proporcionados por uma companhia estável, por morarem juntos, por terem filhos, por terem objetivos comuns, enfim, por estarem casados.
As conseqüências de um relacionamento “ficante”, em geral, são: um esvaziamento da relação, o aumento da insegurança, e muitas vezes, sofrimento e depressão, principalmente para aquele que aceitou o “ficar” apenas como caminho para uma relação mais estável, como é o seu caso. Em inglês, há uma diferença marcante entre o verbo gostar (to like) e o verbo amar (to love). O gostar em inglês significa o prazer que a pessoa tem com relação aos objetos. Gostar é para comida, carro, livro, etc. E o verbo amar é para pessoas. Diz respeito ao prazer, os sentimentos, os objetos comuns, ao companheirismo, ao partilhamento de vida entre pessoas. Em português, o gostar e o amar não tem claramente essa distinção objeto e pessoa.
Na nossa cultura, esses verbos se confundem. (É comum falar-se: – “Eu amo comida japonesa” ou – “Eu gosto muito do meu namorado”). E quando se diferenciam é apenas na intensidade com que nos relacionamos, seja com pessoas ou com coisas. A conseqüência disso é que não distinguimos nas nossas relações amorosas quais são apenas objetais, quando usamos ou somos usados como objetos de prazer somente ou quando construímos uma relação de pessoa para pessoa, no encontro de desejos diante da vida.
O seu “ficante” quer de você apenas o sexo. Ele não quer se envolver com sua vida, e por isso não se importa com seus desejos, aspirações e seus objetivos. Ele não ama você. Ele gosta de você, da mesma forma que ele gosta de qualquer outra “coisa” que lhe dê prazer. Tanto é verdade que ele teme perder desse prazer para outro.
Isso explica o ciúme e o não querer que você saia com outros rapazes. E você, apesar de desejar uma relação superior a essa, se submete a ele, também por causa do prazer esporádico e na esperança esperta de que, algum dia, ele entenderá ao seu desejo. Isso dificilmente ocorrerá porque está evidente o medo que ele tem de amar e, por conseqüência, de se comprometer.
Ele não quer se dar ao trabalho de construir um relacionamento global com você, com medo dos riscos que qualquer construção humana oferece.
E enquanto você permanece em um relacionamento que não a satisfaz (tanto que você me escreveu) e se alimenta de ilusões futuras você fecha o coração para novas possibilidades dentro de seus desejos reais para a vida. Ele não quer que você saia com os seus amigos para não correr o risco de você descobrir a diferença entre o amar e o gostar.
Antônio Roberto
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