ARTIGO – Paixão

Publicado Coluna Bem Viver do Jornal Estado de Minas

“Antônio Roberto, estou novamente apaixonada. Tenho facilidade e acabo sempre me entregando tanto que me esqueço de tudo, inclusive de mim.
Atualmente to tão ciumenta que não sei o que fazer.. A paixão é amor? Maria Júlia de Belo Horizonte”.

A paixão é um sentimento parecido com o amor, mas não é amor. É um envolvimento excessivo na relação amorosa. O que caracteriza a paixão é basicamente a perda da própria identidade. Ou seja, eu entrego o meu coração totalmente ao outro e perco a minha individualidade.

Na verdade, a paixão é um certo enlouquecimento. Todos nós temos uma “ferida”, que é o medo do abandono, por isso temos a necessidade de nos apegar a alguém. Tudo isso é aprendido pela nossa cultura e é uma forma de loucura. Quando a pessoa está apaixonada, ela perde a identidade. Ela já não respira sem o outro, não se alimenta direito sem o outro, pensa nele o tempo todo. Torna-se quase uma obsessão contínua. Apesar da paixão ter sido muito enaltecida pelos poetas, ela é considerada uma forma mais branda de enlouquecimento. A paixão vem do latim patere, que significa sofrer.

Por isso é que há tanto sofrimento no relacionamento apaixonado, como diz a Marias Júlia. Por outro lado, a paixão indica um desejo de amor e podemos transformar a paixão em amor. Quando você recupera sua identidade e consegue transformar a paixão em algo mais calmo, começa a ter o seu próprio espaço e tempo. Quando você consegue uma certo distanciamento do outro, a paixão pode se tornar amor.

Como fazer isto? Devolvendo a auto-estima. Gostando mais de você mesmo. Assim o amor ao outro é um transbordamento do seu próprio amor. E o amor é que nos sara da loucura. Como diz Guimarães Rosa, “qualquer amor, por menor que seja, é um descaso na nossa loucura.”

As pessoas com baixa auto-estima, normalmente se apaixonam mais facilmente pelo outro. São as pessoas que têm mais medo de serem abandonadas, que têm muita necessidade de serem amadas. É uma carência de afeto. Elas têm de preencher o vazio delas. Por isto mesmo a paixão é sempre prejudicial.

Como a paixão ocorre à partir de nossas carências, de falta de amor próprio, ela mantêm uma relação direta com a história de nossos abandonos ou carências infantis, pela ausência de amor dos pais. A paixão é mais comum na adolescência, mas pode ocorrer em qualquer idade.

A paixão como caminho para o amor é até natural que ocorra como pretexto para aprendermos a amar. O que não podemos é ficar infantilmente instalados numa ânsia de sermos amados, sem nos curar da paixão.

E a cura vem do amar a si mesmo, dos exercícios para elevar a auto-estima. Sobretudo ela se cura através do resgate da individualidade. Cada um de nós é absolutamente único, é uma possibilidade no mundo. Cada um tem o seu destino a ser traçado, o seu caminho. Cada um é responsável pelo desenvolvimento e auto-realização. É a partir daí que eu encontro com o outro e vou construir junto dele. Eu quero o outro não para me preencher, me fazer feliz. A cura da paixão se situa num trabalho psicológico em que eu exista cada vez mais como eu.

Há um autor da Gestalt que diz “eu sou eu e você é você”. Na verdade, a cura para paixão é o verdadeiro amor.

Amor é crescimento, è libertação e não posse, domínio, controle.

Distinguir a paixão do amor é fundamental para esquecermos o que séculos nos ensinaram como, por exemplo, em Romeu e Julieta, a morrermos para provar o amor. Só assim não acharemos natural misturar a dor e o Amor.

Antônio Roberto

5 comentários para “ARTIGO – Paixão”

  1. Catia Truppel disse:

    Parabéns pelo texto, gostei muito da resposta e da forma simples, mas profunda, serve para refletirmos.

  2. Marley disse:

    Prezado Antonio Roberto,

    O seu site é muito bacana, os artigos são os que mais gosto, assuntos bem interessantes.
    Esse texto paixão encaixou perfeito p/ mim, no que estou vivendo atualmente.

    Abraços.

  3. claudia cristina disse:

    Com certeza suas palavras resume tudo que precisamos ouvrir,porem as vz preferimos continuar vitimas das paixões.pois ainda nao evoluimos o suficiente para sermos amantes de nós mesmo.
    forte abraço!

  4. patricia disse:

    Olá Antonio Roberto, estou enviando essa mns pra dizer que assisto todos os dias seu programa,e que com suas sábias palavras consigo refletir sobre minha vida.
    Obrigada.

    Patricia

  5. janaina disse:

    super interesante seu entendimento sobre paixão.

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